segunda-feira, 21 de abril de 2025

Jorge Mario Bergoglio: o revolucionário Papa latino-americano



“Não deixem que lhes roubem a esperança” (Mário Jorge Bergoglio, 1936-2025). 

Jorge Mario Bergoglio, aos 88 anos, o primeiro Papa latino-americano, recém partiu e, mais do que deixar saudade, prestou um grande serviço não apenas à Igreja Católica, mas para a humanidade.

O duenésimo sexagésimo sexto Papa, que resolveu homenagear São Francisco com a sua denominação, o “padroeiro dos pobres” e preocupado com a ecologia integral, autenticidade que o livrou da continuidade dos números romanos, deixou um poderoso legado de crítica social e econômica. Não por acaso, fala-se em uma “economia de Francisco”, uma economia solidária preocupada com a vida e com a promoção do ser humano. 

A “economia de Deus”, para o “Papa Francisco”, não mata, não descarta e nem esmaga, tudo que a “globalização da indiferença” e do capitalismo opressor e excludente não faz, todas horas, todos os dias.

Preocupado com os “condenados da terra” e das muitas guerras, com a preocupante devastação do meio ambiente pela evidente situação climática e diversos outros atos predatórios dos ditos humanos, com a necessidade de diálogo para abertura dos horizontes da juventude, com os migrantes e com os muitos excluídos do capital, o primeiro papa não europeu era, de fato, era preocupado com o “sul do mundo”, desde o “fim do mundo”, como ele mesmo anunciou. 

Embora não se possa dizer que tenha sido, na origem, um Teólogo de Libertação, a sua práxis teve muitos momentos de “Libertação”, na ideia de que siamo fratelli tutti, de que realmente somos todos irmãos.

Tratava-se de um “santo padre” posicionado na geopolítica mundial que, além de gostar de futebol e preferir um tango à música clássica, buscava transformações e mudanças, defensor de uma “Igreja em saída”, uma Igreja aberta e disposta a encontrar, cuidar e acolher a tod@s.

A começar pela exemplaridade de se despir dos luxos e vaidades da vida do maior líder religioso católico, atitude realmente diferenciada que fez dele o “primeiro” também nesse aspecto, um solitário capaz de rezar e pregar sozinho se preciso fosse, como fez numa de suas imagens mais marcantes, quando discursou em 27 de março de 2020 para uma Praça de São Pedro retumbantemente vazia por conta do contexto pandêmico.

Francisco, que pisou chãos inédito para um Papa, também foi entusiasta e protagonista do necessário diálogo inter-religioso, defensor de uma fraternidade e de uma religiosidade universal, algo fundamental em tempo em que  ainda existem, por diversos outros meios, outros tipos de guerras religiosas igualmente nocivas à humanidade, movidas pela segregação e pelo ódio.

O simbolismo da sua data de partida, um dia após a celebração de Páscoa, diz muito sobre a sua missão hermenêutica corajosamente cumprida: com seu estilo de certo modo inédito, carismático e sempre acolhedor, “ressuscitou”, em muitos termos e dimensões, com diversos acertos, a própria Igreja Católica. 

Sem dúvida, nos seus doze anos de pontificado (2013-2025), deixa um legado de cuidado com os marginalizados e mais vulneráveis, de rejeição à violência de todo tipo (inclusive contra mulheres e crianças), de respeito à diferença, aposta na paz e, sobretudo, esperança.


terça-feira, 7 de setembro de 2021

O particular 07 de setembro de 2021: ensaio sobre a cegueira

 





"Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara" José Saramago (1922-2010)

Como celebrar a independência política do Brasil que, quase 200 anos depois, segue situado na periferia do capitalismo com uma economia vergonhosamente dependente sem projeto de país? 

Como festejar a independência quando ditas "pessoas de bem" recheadas de ignorância e "colonialidade do saber" vão para as ruas, dentre outras atitudes, com "placas" em inglês para ovacionar um confesso "adorador da ditadura"? 

Como comemorar uma independência para um país que, mesmo estando entre as maiores economias e democracias do mundo, em meio a diversas outras desgraças cotidianas, ainda tem analfabetos, larga pobreza, inflação em alta e quase 15 milhões de desempregados? 

Como compreender a independência quando muita gente de essência "vende-pátria" não tem vergonha em sequestrar as "cores da bandeira" para dizer que "autoriza" ditadura? 

Como louvar a independência sem discutir o papel e o lugar das ditas Forças Armadas para um país que escandalosamente não teve "justiça de transição pelo que ocorreu entre 1964/1985 e nos quais certa casta militar está, mais do que nunca, pelo menos em tempo civil, "afogada" no poder fetichizado? 

Como compreender a independência na perspectiva de um Estado supostamente laico que, por diversos caminhos, deveria desamparar a perigosa relação da política com o viés religioso nas suas multifacetadas expressões de "cegueira"?  

A democracia brasileira, antes de ser uma crença, precisa alcançar muito além da representação, com participação, deliberação e, sim, a necessária radicalidade, ainda que por novos e melhores caminhos.

A propósito, como entender a complexidade e a diversidade da "voz das ruas" quando ainda não fizemos uma leitura adequada do junho de 2013? 

O "grito dos excluídos" ainda é um tímido, mas quem sabe necessário começo. Precisa ser multiplicado para muito além dos discursos partidários ocupados pura e simplesmente do viés eleitoral...

É hora da sociedade civil preservar o que pode restar de realmente regenerador e vital na democracia brasileira.

Nunca foi tão urgente a formação política e a conscientização das massas e da classe trabalhadora (sim, ainda é de "guerra de classes" que se trata...)

Nada pode ser tão colonial e antinacional do que a banalização e a "corrupção" do político, una vez que a Política, como ensina Dussel, é  uma atividade nobre composta de ações, instituições e princípios...

Quem desacredita a política satisfação das necessidades coletivas faz a pior corrupção para uma República dita democrática, ainda que formalmente. 

Nesse difícil tempo alargadamente pandêmico, a falta de formação de consciência sobre os reais problemas do Brasil é o pior vírus a ser enfrentado. 

Educação política das bases precisa é uma imunização que precisa ser urgentemente buscada, em especial para a "classe trabalhadora", especialmente quando esta, de algum modo, em alguma fração, chancela ou tolera a violação sistemática e permanente de direitos humanos arduamente conquistados (muitos dos quais sequer foram efetivados).

A frágil e hoje agonizante democracia brasileira está aí, prestes a ser reinventada e, sobretudo, como ensina NILDO OURIQUES, "adjetivada"...

Por um "Dia da Pátria" com mais consciência e formação política do povo brasileiro, sem rebaixamento e banalização da Política e da sua própria estruturação jurídica pela Constituição, mesmo quando essa, nos seus limites, na prática,  serve para a reprodução e perpetuação das desigualdades do capital. 

Quando a mais limitada dimensão democrática da democracia formal como a representação em um de seus mais elevados graus é pobre, baixa e ignorante, tanto pior. Maior a crise a agonia da própria democracia no que pode ter de poder realmente transformador. 

Infeliz de quem ainda, por ingenuidade, ignorância ou teimosia, crê no "mito" que mente...a "nossa democracia", na sua essência, há de ser muito mais do que hoje aparece na superficialidade como aparência. "Quem autoriza" o seu apodrecimento precisa repensar qual é o seu lugar e responsabilidade.

Para quem o tempo político pode estar acabando? Para quem adora ditadura sob um falso grito de pátria, deus, família e liberdade. Esta é a verdadeira prisão e "açoite" do que ainda sobrou da nossa hoje envergonhada democracia em que o dito "mercado" teima em violar direitos humanos.

Quem nega as condições de reprodução e desenvolvimento da vida de um país soberano e verdadeiramente independente há de enfrentará as consequências da própria miséria política, moral e intelectual. Nunca poderá reduzir ou achar que encarna alguma "democracia" do tamanho da nossa.

A implacável história no seu materialismo dialético não absolverá (nem representante...nem supostos representados). Não mesmo. "Tudo"? Acho que logo ali não será mais "nada", a não ser quando, de algum modo aliviados, olharmos para trás para ver o tamanho do estrago. Se ontem passaste e hoje ainda passas, amanhã certamente não passarás. 

Feliz 07 de setembro de 2021 para um país que, não só nas capitais, mas sobretudo no seu interior, a despeito da aparente cegueira de muitas e muitos, precisa "esperançar" a sua (re) construção democrática substancial e que ainda está erraticamente procurando a sua independência e"libertação" em muitos sentidos. 









quinta-feira, 13 de agosto de 2020

De quais "reformas" o Brasil realmente precisa?

 

O Brasil precisa de "reformas"? Quais os significados desse significante "reformas"? Alguns dirão: reformas verdadeiramente transformadoras e estruturantes. Não de quaisquer "reformas" que, em verdade, "mudem não mudando". Certo, pode ser. Uma delas, inclusive, da qual nada se fala nos "jornalões": a Reforma Agrária!

Há quem, com o olhar atento para a história da América Latina, diga que o Brasil precisa muito mais do que isso. Não por acaso Nildo Ouriques defende a necessidade de uma "revolução brasileira". A Revolução na nossa realidade ainda é uma "ausência". E então, a velha pergunta, o que fazer?

De  qualquer modo, mesmo essas eventuais mudanças significativas, na otimista via da "reforma", todavia, certamente não virão de um governo de extrema direita aliado ao "centrão" e ao que existe de pior e mais fisiológico na política brasileira, isso tudo para dizer o menos. Muitas outras e igualmente comprometedoras podem ser as relações. 

Por mais que os defensores do "mercado" repitam, como mantra, a necessidade ampla e genérica de "reformas" (ontem a previdenciária e a trabalhista; hoje a tributária e a administrativa; amanhã a política etc), é preciso discutir quais seriam as suas bases e razões. 

A revolução ou mesmo as "reformas" de verdade que o Brasil precisa para ser um país soberano menos desigual e dependente não passam pelo enfraquecimento do Estado brasileiro, pelo menos para o propósito que justifica a existência do próprio Estado como ficção. Se há um Direito do Estado, um Direito Constitucional, um Direito Administrativo, certamente que é para um determinado propósito de um Estado construído para as pessoas, não para o mercado. Projetar um país e o seu desenvolvimento (melhor do que isso, "bem viver") em todos os níveis, inclusive social, vai muito além disso.

Aliás, sempre bom lembrar, qual é o paradigma do Estado brasileiro?  Um Estado Democrático de Direito que precisa buscar a transformação social (artigo 1o, parágrafo único, da Constituição). Goste-se ou não, esse é o projeto constitucional (ainda um tanto quanto descumprido, a despeito de diversas "emendas" à Carta Cidadã de 1988).

Uma pergunta importante é se as ditas e solicitadas "reformas" são para o "Estado" brasileiro ou para o "mercado". Desnecessário dizer que na dita e tacanha "agenda liberal", essa mesma defendida por muitos editoriais da grande mídia, não há espaço para outra coisa a não ser o endeusado "mercado". O mesmo "amor" que sobra ao mercado é o "ódio" destinado ao Estado na sua pior e mais estigmatizada "versão" (o mesmo que, paradoxalmente, é chamado a todo tempo para socorrer o mercado nas muitas crises do "capital" - esse sim o pior e mais letal vírus).

Assim, não é preciso muito esforço crítico para se saber que as defendidas "reformas" não são para cumprir o projeto do Estado constitucional brasileiro na sua eficiência, mas apenas para atender a interesses declarados (e não declarados) do "mercado". 

A única "liberdade" que instiga a mobilização por ditas "reformas" da ala econômica do atual governo é uma só: a do "mercado", não a da vida concreta das pessoas em um país de marcante desigualdade e injustiça, ainda mais acentuadas em tempos de pandemia. Mesmo nesse novo tempo do mundo, assiste-se a um "velho normal": é o "mercado" que precisa ser protegido, não o "povo brasileiro" no seu conceito mais restrito.

A única "radicalidade" que interessa a "essa turma", no seu egoísta e mesquinho horizonte neoliberal como "razão do mundo", não raro movida por uma lógica de "morte" (portanto, negadora da "vida"),  é a do "mercado". O "mercado" é a única vida que importa. Ele é um culto "monoteísta" sempre reverenciado.

Não por acaso, essa mesma  gente tacanha ironiza e ridiculariza a expressão "genocídio". À "necropolítica" que louva "ditadores" e "ditadura" definitivamente não importam as "mortes em massa". 

É por isso que o mesmo "teto de gastos" que se pretende aplicar na saúde e educação não serve para os "bancos". 

Da mesma maneira que a discutida "reforma tributária" dificilmente trará a tributação das "grandes fortunas"(cada vez maiores)  e dos "dividendos", enfim, do conhecido "andar de cima". Já os "livros" e as editoras independentes: ah esses são "objetos perigosos"! (resta saber para quem...).

É nessa conjuntura que a pobreza do noticiário jornalístico da "grande imprensa" dos últimos dias nos desafia a refletir. Em meio a uma pandemia mortífera, afinal, o quê deveria representar a comentada  e ruidosa"saída" de dois auxiliares da equipe e do "time" de Paulo Guedes como Ministro da Economia? Os "textos" e justificativas especulados ou confessados para as saídas dizem muito a quem tiver mínimo espírito crítico. Ali, certamente, não houve uma renúncia por "razões de Estado", ao menos se compreendermos o Estado brasileiro pelo que exige a Constituição. Os interesses certamente são outros...

Ora, a pior e mais preocupante e progressiva "debandada" proporcionada pelo governo Bolsonaro que merece ser efetivamente lamentada é uma só: "debandada" de direitos. Enfraquecimento da democracia. Desrespeito aos direitos humanos, um dos quais a saúde. Outro, o meio ambiente. E muito mais. Ao que se diz, outra "debandada" que dizem que é questão de tempo para se efetivar é a do "ainda" Ministro Paulo Guedes. O Ministro exemplar de uma "economia dependente". Aquele que, com pouco "saber" ao fundo, valendo-se do "poder" que o cargo ora lhe confere, ora vocifera lunaticamente na "curva em v", ora parece prostrado e desconfortável em um trágico (des) governo.

Isso porque a "agenda" deste governo Bolsonaro é muito pior do que simplesmente "liberal". Ela é vergonhosamente  "dependente". É tudo, menos "Pró-Brasil". Isso tudo em um atrapalhado  e babilônico (des) governo "cheio" de militares (o dito partido ou "núcleo fardado" que ainda cerca e protege o "capitão"). No mínimo curioso. 

Perceba-se que Maia e Alcolumbre (e muitos outros, incluindo boa parte da "grande imprensa") definitivamente não são adversários desse "projeto" de governo. São "aliados". O trem "político" é o mesmo, só muda o vagão.

Se as tímidas e até mesmo conservadoras "reformas de base" propostas por Jango levaram à Ditadura de 1964/1985, o que poderá ocorrer no dia que o Brasil pretender reformas estruturantes e necessárias para modificar o Estado brasileiro? Não por acaso que no horizonte da intelectualidade brasileira não dependente, como é o caso de Nildo Ouriques, que sabe a lição e o aprendizado da história no "sul" do mundo e na América Latina, subsista a proposta de muito mais do que uma reforma, uma "revolução". Desprezando a "ciência" e sem a mudança de "cultura", como chegar lá? 

Sobra espaço para algum otimismo na vontade e pessimismo na razão? Talvez.

Será muito imaginar o fim da pandemia com algum espaço para a "democracia radical" voltar à cena? Eis aí um elemento ainda pouco e insuficientemente estudado e sempre indeterminado e potente (inclusive porque representa a "potentia", o poder em si que, como Dussel ensina, é sempre do povo) que pode levar para algum "novo lugar", ainda que seja o da "reforma" tática e não da "revolução" (brasileira) como estratégia.

A história terá muito para contar desses nossos tristes tempos pandêmicos.  A ver o que virá. Fiquemos atentos e vigilantes pela democracia substancial e transformadora no conjunto de suas múltiplas cores e dimensões. Essa mesma democracia, especialmente aquela de alta intensidade que, de algum modo, há de nos tirar de um eclipse que logo ali, poderá nos abandonar na mais completa escuridão.



 

quinta-feira, 11 de junho de 2020

A perda de Carlos Lessa: um economista estruturalista preocupado com o Brasil






"Qual é o Brasil que nós queremos? Eu tenho um Brasil do meu sonho e do meu coração [...] Esse não é um sonho compartilhado de maneira inequívoca. Acho que nós temos que avançar nessa discussão [...] O debate brasileiro ainda não está centralizado sobre o Brasil que nós queremos! [...] Qualquer saída brasileira passa por pensar uma alternativa a essa falta de centralidade" 


Carlos Lessa, em entrevista ao Programa Faixa Livre, 05 de janeiro de 2017. 

A economia brasileira perdeu um importante diferencial no último 05 de junho.

O falecimento de Carlos Francisco Theodoro Machado Ribeiro de Lessa - Professor emérito no Instituto de Economia da UFRJ e em diversos outros espaços de ensino e produção de saber, que  também chegou a ser Reitor da mesma universidade (entre julho de 2002 a março de 2003) - aos 83 anos, evoca um luto significativo e o "vazio" próprio daqueles que, na sua vida transformadora, impactam positivamente a realidade.

Lessa era um economista defensor da universidade pública brasileira, motivo a celebrar em tempos em que a economia brasileira do governo ainda "de turno" é liderada por um Ministro que, em reunião ministerial, confessou o desejo de colocar uma "granada" no servidor (e por consequência no serviço) público.

Lessa graduou-se pela UFRJ em 1959, tornou-se Mestre em Análise Econômica pelo Conselho Nacional de Economia e Doutor em Ciências Humanas pela Unicamp (1980).

Mais uma vítima ilustre da pandemia COVID-19, ele sim era um verdadeiro apaixonado pelo Brasil e pelo Rio de Janeiro que, na sua palavra, agregava "melhor e o pior" do Brasil. Não por acaso fundou o Instituto da Brasilidade.

A parte final até hoje não aplicada na prática pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e "Social"- BDES, instituição que também chegou a ser Presidente entre 2003 e 2004, é mérito seu e de suas ideias. 

Entre elas, também havia espaço com a preocupação sobre a cidade, diante da constatação de que o Brasil é um país urbano "metropolizado" sem uma discussão séria sobre a questão "metropolitana".

Além disso, apostava na juventude. "A juventude, que posição vai assumir? Uma coisa essa juventude sabe ou está percebendo de maneira cada vez mais intensa. Não há saída de globalização. Ou a saída é procurada pela unidade, reflexão e organização da vida nacional ou não tem solução" e na busca de um "outro modo de ser" pela nova geração que estaria se gestando em condições de mudar o país, como mostraram as ocupações escolares da qual também foi entusiasta.

Carlos Lessa era um economista que, na sua concepção estruturalista, tinha a dimensão da importância da democracia para um verdadeiro desenvolvimento.

Lessa também foi autor de diversos livros sobre não apenas sobre economia, mas sobre cultura e história. Do seu "Manual de introdução à economia" ao "Rio de todos os Brasis", seus escritos e palestras serviram como registro de um saber econômico menos colonial. 

Pelo que se pôde ouvir de suas falas em tempos recentes, além da falta de um projeto nacional, da ânsia pelo "Brasil que queremos", preocupava-lhe o genuíno desenvolvimento e a necessária soberania econômica do Brasil (inclusive, por exemplo, a capacidade ociosa da indústria metal-mecânica automobilística, a aposta na "construção civil" e a busca do desenvolvimento pela "casa própria" como um denominador comum com capacidade de mobilização da sociedade em um dos poucos segmentos com certa hegemonia nacional, à aposta transformadora em possibilidades de economia popular etc), aspectos muito importantes, especialmente em tempo em que o governo de turno mostra todo o seu "entreguismo".

Em suma, perdemos um grande "intérprete" econômico de um Brasil mais independente e justo.

Fará muita falta não mais poder ouvir Carlos Lessa falar sobre a "situação do Brasil", como fez, por diversas vezes, no Programa Programa Faixa Livre (www.faixalivre.org.br). Foi no Programa Faixa Livre (do qual era um confesso ouvinte), aliás, que, em janeiro de 2017, além de outras ideias aqui destacadas, o Professor Carlos Lessa bem diagnosticava que a nossa crise continuaria amadurecendo. Estava certo. 




sábado, 6 de junho de 2020

Ricardo Antunes está certo: o Brasil quer mesmo a "copa" mortífera da COVID-19...



Eu já devia imaginar que a pandemia iria ter um retrato ainda mais triste e genocida na periferia do mundo capitalista. No "sul do mundo" as dores são sempre piores.  

A pandemia anunciada inicialmente como de propagação "democrática" e independente de raça ou classe social, progressivamente, em meio a um cenário de gente sem casa ou com moradias precárias, sem saneamento básico, com um sistema público sucateado e subfinanciado e em um cenário de uma assistência social débil e cambaleante sem ações, programas e políticas públicas suficientes, em meio ao "cassino" do capital, mostra que, sim, ela se transmite com maior velocidade no cenário da  pobreza e da desigualdade.

Mas não só: pobreza, desigualdade, irresponsabilidade e insensatez.

Por mais "esforçados" que pareçam, nossos meios de comunicação (mesmo os mais progressistas) não conseguem se engajar (e impactar) da mesma maneira do que fizeram há poucos dias, quando o COVID-19 era uma "novidade", quando as mortes para mais de mil ocorriam na Itália, na Espanha, na França e nos Estados Unidos, para ficar em alguns reduzidos exemplos.

Como entender que um cuidado necessário (em um cenário com praticamente a ausência de outras alternativas) iniciado em meados de março possa ser "flexibilizado" em pleno junho justamente quando o país não atingiu o sinistro pico de infectados e mortos pelo "coronavírus" (que infelizmente, já superam as dezenas de milhares)? 

O Brasil será um caso único no mundo de desprezo deliberado à vida em meio ao caos pandêmico e suas múltiplas crises (sanitária, social, política e econômica). 

Eu gostaria muito de acreditar que a postura tem alguma razão técnica, sanitária ou epidemiológica para essa "flexibilização" em plena pandemia, mas olhando para a trajetória de alguns "representantes" eleitos, sinceramente prefiro não me iludir. Melhor aceitar que o "mercado", de fato,  para muitos, vale mais do que os "direitos humanos". 

O Brasil é o único país que trocou dois Ministros da Saúde em plena pandemia. Como se não fosse suficiente, nós, que tivemos a Ditadura como o maior câncer da nossa história recente (depois do colonialismo), temos um Ministro de Saúde interino que, pelo que se vê, pouco entende ou sabe não só de saúde pública, mas também da ideia de República, pois nela a "pátria" é muito maior do que o desejo de plantão do governante de passagem.

"Acima de tudo" e de "todos" permanecemos regidos, em maior ou menor grau, por diversos (des) governos que, por suas ações e omissões cotidianas, mais concentradas ou diluídas, em diversas esferas federativas, vão da estupidez à insensatez, flertando com a canalhice e abraçando a "necropolítica". 

Em meio a isso (e às muitas outras desgraças do cotidiano, como a triste morte de uma criança quando sua mãe trabalhadora passeava com o cachorro da patroa), ouço a notícia de que o "dólar caiu" e que a Bolsa se aproxima de uma centena de milhares de pontos. É, é duro dizer, mas muitos certamente acham que os pontos da Ibovespa valem mais do que os pontos negros dos "alvéolos" pulmonares, dos pontos ainda não atingidos nessa curva mortal na qual mergulhamos há semanas, dos pontos que, até aqui (e infelizmente vai piorar), impedem, no mínimo (porque na verdade a estatística real é ainda mais perversa) uma brasileira ou um brasileiro de respirar por minuto!

Em meio a isso, o Presidente da República eleito (e graças "às instituições em funcionamento" ainda no cargo) mimetiza "Trump" e ameaça sair da Organização Mundial da Saúde, o mesmo "Trump" que anuncia o momento difícil do Brasil frente à pandemia posando agora de "responsável".

Como admitir que um Presidente possa anunciar uma propositada omissão de informação sobre um dado sanitário essencial como o número de mortos nas últimas 24 horas (ainda que esse número seja provavelmente muitas vezes menor do que a realidade diante de um cenário de ausência de testes e de escancarada subnotificação)? 

Vidas brasileiras importam ou não? 

Eu felizmente ainda não perdi nenhum familiar, amiga ou amigo pela COVID-19, mas já soube de diversas pessoas de minhas relações diretas ou indiretas que passaram por isso. Será muito pedir um mínimo de "alteridade" e "respeito" pelas pessoas que sequer puderam velar adequadamente a morte e a última hora dos seus? 

Como disse o Professor Ricardo Antunes outro dia (em evento do MP Transforma), o Brasil parece estar realmente olhando para a pandemia e pensando..."essa copa tem que ser nossa".

Será mesmo? 




sábado, 16 de maio de 2020

Sobre limites e responsabilidades: o texto de "Mourão" no Estadão, "decrifa-me ou..."





O Vice-Presidente da República (que, importante lembrar, goste-se ou não, é tão "eleito" quanto o Presidente da República, o que vale para dizer que não será "golpista" caso eventualmente assuma, mas também para reconhecer que eventuais vícios no processo eleitoral das Eleições de 2018  podem necessariamente alcançar a legitimidade da sua escolha), Antonio Hamilton Martins Mourão, também conhecido como "General Mourão", publicou um texto em 14 de maio de 2020 no Estado de São Paulo denominado "Limites e responsabilidades".

Na estrutura dos seus argumentos, pode-se destacar 17 (o número é mera coincidência, será?) pontos:  
1) "que a pandemia de covid-19 não é só uma questão de saúde; por seu alcance, sempre foi social; pelos seus efeitos, já se tornou econômica; e, por suas consequências pode vir a ser de segurança"; 
2) que no enfrentamento da pandemia "nenhum vem causando tanto mal a si mesmo como o Brasil"; 3) crítica da "polarização que tomou conta de nossa sociedade", pois até mesmo a "opinião, que no Brasil corre o risco de ser judicializada"; 
4) que o essencial para qualquer problema é "sentar à mesa, conversar e debater"; 
5) que a imprensa precisa "rever seus procedimentos nesta calamidade", pois "opiniões" (...) "devem ter o mesmo espaço nos principais veículos de comunicação";
6) que o ambiente de convivência e tolerância deve vigorar numa democracia; 
7) "degradação do conhecimento político"; 
8) que o Brasil não é uma confederação, mas uma "federação"; 
9) que os Estados da federação não estariam procedendo com boa-fé; 
10) que tudo isso prejudica a "imagem" do Brasil no exterior; 
11) que a acusação da "destruição da Amazônia e no agravamento do aquecimento global" é "leviana", pois "haveria um "esforço do governo para enfrentar o desafio que se coloca ao Brasil naquela imensa região, que desconhecem e pela qual jamais fizeram algo de palpável"; 
12) que a situação é grave, mas não é insuperável, "desde que haja um mínimo de sensibilidade das mais altas autoridades do País"; 
13) Que as medidas isolamento social foram "desordenadas"; 
14) que a economia do país está paralisada e que há ameaça de desorganização do sistema produtivo, citando como exemplo "as maiores quedas na exportações brasileiras de janeiro a abril deste ano foram as da indústria de transformação, automobilística e aeronáutica, as que mais geram riqueza"; 15) que a "catástrofe do desemprego está no horizonte; 
16) "enquanto os países mais importantes do mundo se organizam para enfrentar a pandemia em todas as frentes, de saúde a produção e consumo, aqui, no Brasil, continuamos entregues a estatísticas seletivas, discórdia, corrupção e oportunismo"; 
17) que "há tempo para reverter o desastre", "basta que respeitem os limites e as responsabilidades das autoridades legalmente constituídas".

No seu texto constam algumas ideias sobre diversos e variados temas. Pandemia no mundo e no Brasil. Suposto isolamento social "desordenado". A importância do diálogo e da tolerância na política e na democracia. Crítica à imprensa e falta de isonomia na circulação da opinião. Judicialização. Federação brasileira e o papel dos Estados. Meio Ambiente e Amazônia. Economia e industrialização do país. Falta de "sensibilidade das mais altas autoridades do País". Estatísticas seletivas. Discórdia. Corrupção. Oportunismo. Desastre. Responsabilidade. 

Sob o ponto de vista de amparo referencial ao que se afirma, o mais próximo que há no seu texto é citação da Constituição dos Estados Unidos (17 de setembro de 1787) e em citações de dois "federalistas", no caso, John Jay, James Madison, para depois chegar em Amaro Cavalcanti em uma obra do século XIX.

Mesmo assim, como mostram os trechos em destaque, a depender da interpretação, é possível concordar com parte das ideias lançadas no seu texto, dependendo da justificativa para o argumento e de quem sejam os seus destinatários. 

A sociedade brasileira, no seu todo, precisa discutir e preocupar-se a a partir desse texto.

Entre as muitas perguntas (e respostas e contestações igualmente possíveis a diversas afirmações, algumas das quais são de outro lado inaceitáveis, dependendo de novo da interpretação) destaco uma: qual é o principal significado ou a essência da "crítica" de Mourão? A quem ela se dirige?  Em parte, ao próprio governo? Quais trechos desse texto seriam destacados por ele como os principais momentos da sua "mensagem" à nação? 

Ou o texto é mesmo como parece, propositalmente dúbio e confuso, como é o governo do qual o "General" ora investido de "Vice-Presidente" forma parte?  

Não será melhor tentar "decifrar" os enigmas do texto antes que corramos o risco de sermos "devorados" pelo seu autor logo ali adiante?





sábado, 2 de maio de 2020

União Europeia e COVID-19: um fracasso



A terrível pandemia COVID-19 (mesmo com sua letalidade aparentemente subavaliada, com números certamente maiores que os oficiais), entre diversas outras reflexões, coloca em teste forte, a União Europeia e seu projeto multilateral.

A falta de cooperação inicial do bloco europeu com o problema (iniciado na Itália e até aqui o país europeu mais duramente afetado pela pandemia), o fechamento de fronteiras como solução egoísta, a falta de solidariedade e incapacidade para ajuda recíproca colocaram o modelo da União Europeia em discussão, pelo menos para uma crise sanitária como essa.

Até agora assistimos, no geral, a ideia de "cada um por si" e nada de uma União Europeia eficaz e eficientemente "por todos", o que enfraquece o importante ideal comunitário, alimentando discursos xenófobos e de extrema-direita já existentes.

Na projetada geopolítica pós-pandemia, de um mundo mais globalizado, "cartelizado" e tecnológico, é de se questionar qual será o lugar de uma União Europeia já enfraquecida com a saída do Reino Unido e com o fato de outros países cogitarem uma resposta similar.

Ontem, uma matéria do "Le Monde" mostrou como parte dos dirigentes da União Europeia subestimaram a pandemia.

Um bom exemplo passa pela postura da sueca Ann Linde, em entrevista dada em 10 de março. Questionada sobre o problema das mortes na Itália, afirmou que "a saúde é da competência dos Estados, não da União Europeia", limitando-se a dizer que estava "acompanhando a situação na Itália".

Será que a União Europeia tinha e tem uma preocupação comunitária na perspectiva sanitária?

Quem achava que uma crise sanitária não desencaderia uma crise política ou mesmo um colapso econômico (este, já anunciado por Christine Lagarde,  Presidente do Banco Central Europeu)?

Fala-se numa redução de PIB na zona do euro de 5% a 12% ao ano. Resta ver como responderão as quatro maiores economias (65% da soma das economias do bloco), 3/4 delas atingidas fortemente pela pandemia: Alemanha, França, Itália e Espanha,

Mais: qual será a proposta de (re) industrialização da Europa pós COVID-19, inclusive para os insumos de saúde necessários para assegurar a sua "soberania"?

A estrutura multilateral da Europa e o projeto da União Europeia sucumbiram até aqui ao COVID-19. Mas pode ser pior.  Isso porque pode estar em jogo o começo do triste fim da União Europeia.

O desafio está na mão dos políticos europeus, em especial para Ursula von der Leyen, Presidente da Comissão Europeia em começo de mandato, iniciado em 01 de dezembro de 2019.

domingo, 26 de abril de 2020

O novo tempo do mundo


Estamos no permanente debate entre a crise sanitária e a econômica.  De ambas depende a perpetuação do melhor parâmetro filosófico: o paradigma da vida concreta, próprio da Filosofia da Libertação. 

A saúde e a economia são os principais assuntos que percorrem o mundo em diferentes narrativas e perspectivas.

Estamos em um intervalo de tempo que permite repensar.

Os modelos hegemônicos estão sob discussão em um contexto geopolítico complexo que permite muitos diagnósticos e projeções.

A propósito, muitos já falam em uma nova "Guerra Fria" entre China e Estados Unidos. A Europa começa a repensar a necessidade de revisar o seu projeto de industrialização. Todos "dependem" da China para quase tudo, o que faz da soberania um recurso meramente retórico.

Tanto os sistemas de saúde (públicos/privados) como o capitalismo (o "dito" modelo que dizem funcionar - e realmente funciona, só que para uma minoria nos movimentos de M e W do "deus mercado") mostram os seus grosseiros e vergonhosos limites.

Especialmente no Brasil, o SUS - maior plano de saúde do mundo está posto a prova. O seu desmonte gradual ao longo dos anos, em especial desde o Governo Temer, somado a falta de prioridade à atenção primária, deveriam estar em pauta. Infelizmente faltam (e sempre faltaram) leitos de UTI, só que agora a morte é concentrada, nacional e mais evidente. O Judiciário continua sem resolver vem o problema da tutela coletiva, em especial na saúde. Isso torna o nosso quadro ainda mais preocupante, especialmente diante de uma "necropolítica" sanitária de desmantelamento e subfinanciamento do SUS que não é de hoje. 

O capitalismo está diante de uma nova crise (a frequência entre uma e outra parece menor), só que agora diferente das demais. A dita "volatilidade" do mercado serve para mostrar algo que é da natureza do modelo: mais concentração e mais desigualdade. É uma seleção natural dos mais fortes (que o diga a Amazon com os seus quase 600.000 empregados nos Estados Unidos). É para esses mais "fortes" que o Estado sempre acena.

O mundo todo discute o papel do Estado na economia. Engraçado que, nessa hora, todos parecem "keynesianos".

E, para além disso, há um importante debate comportamental: e experiência desse novo e único tempo do mundo muda exatamente o quê? Qual a responsabilidade de cada um pelas escolhas nesse momento de "restrição"?

O que muda no plano pessoal? Hora da união da família aumentar ou dissolver de vez? Hora de repensar relacionamentos, refletir sobre deveres e obrigações domésticos? 

E no plano profissional? Todo mundo, mais do que nunca, impactado pela tecnologia. Hora de aprender que precisamos pensar em novas formas de trabalhar? Espaço para aumento da super e autoexploração? 

E no plano político? Será que os partidos políticos aproveitarão a oportunidade para a necessária reinvenção e formação de base? E os sindicatos? E a "demonização" da política, aumenta ou diminui? O que esperar da "democracia"?

Para alguns, nada vai mudar. A volta gradual da rotina (no cenário mais otimista, em meses) restabeleceria a normalidade e deixaria toda a angústia para trás.

Para outros, esse período abre um período de reflexão, um repensar de escolhas de consumo e, portanto, uma forte crise de demanda.

Como toda a crise, aberta estão as oportunidades para o descobrimento da autenticidade. 

E se...? 

É tempo de incerteza, mas, ao mesmo tempo, de inevitável mudança. 






sexta-feira, 21 de junho de 2019

O desmembramento de um corpo dentro de um consulado: a brutal morte de Jamal Klashoggi




O que fazer quando um jornalista árabe residente na Turquia comparece a embaixada de seu país para obter documentos para um casamento e de lá não mais retorna, sabendo-se que foi assassinado com fortes provas de que sua morte foi uma encomenda política? 

Isso ocorreu em 02 de outubro de 2018, em Istambul, na Turquia, vitimando o jornalista Jamal Klashoggi, que teria sido morto com uma injeção letal e posteriormente teve o corpo desmembrado.

No último dia 19 de junho a ONU, por intermédio de seu Conselho de Direitos Humanos, sob o comando de Agnès Callamard, publicou um dossiê sobre o assunto, responsabilizando o Estado da Arábia Saudita sobre o crime, inclusive suspeitas de participação do Príncipe herdeiro Mohammed Ben Salman (MBS).

Khashoggi era um crítico contumaz do autoritarismo de MBS no seu privilegiado espaço no Washington Post. 

Ao que consta, 15 pessoas estariam envolvidas no assassinato premeditado, inclusive um médico legista (Salah Al-Tubaigy) e um conselheiro de MBS chamado Saoud Al-Qahtani. O primeiro está sendo investigado; o segundo não.

Somente em 15 de outubro a Polícia Turca conseguiu periciar o local do crime. O Cônsul Árabe na Turquia deixou o país no dia 16 de outubro sem consequência. 

A investigação conduzida pelos Árabes é obviamente sem credibilidade. 

Houve gravações do serviço secreto turco dentro do Consulado que permitiram desvendar o crime. 

A Comunidade Internacional não fará nada a respeito? Os interesses comerciais do petróleo valem mais do que o esquartejamento de um jornalista dentro de um espaço oficial consular? 

sábado, 8 de junho de 2019

Adeus ao mestre do heavy-melódico brasileiro: André Matos




"There's nowhere else to be. And no place to return.[...] At times my conscience speaks, but now it's more and more. The day i'm waiting for..." Rio (Time do be Free). André Matos/Hugo Mariutti
 
O dia 08 de junho de 2019 (um raro sábado no outono quase inverno de Curitiba) marca a morte e a despedida de um dos maiores e mais talentosos músicos brasileiros de todos os tempos. Um dia triste.

A morte prematura aos 47 anos do precioso André Matos deixa um vazio nos seus fãs do Viper, Shaman e, sobretudo, do Angra, uma das maiores e melhores bandas brasileiras.

Todos seus fãs ainda esperavam vê-lo no palco do Angra, de novo, como ele vez com o Viper há não muito tempo.

Aos 13 anos, André já tinha uma promissora carreira iniciando com o Viper. De 1993 a 2000 fundou e fez a maior e mais estupenda fase do Angra. Depois veio o Sha(a)man e, enfim, a carreira "solo" (escrevo em aspas porque qualquer banda que tinha André Matos no seu quadro sabia o quanto ele brilhava sozinho, como sol, não só para ele, mas para todo o conjunto).

O virtuosismo de André Matos sempre foi reconhecido nacional e mundialmente.

Ter vendido mais de um milhão de cópias e ter desfrutado de sucesso mundial não é suficiente para descrever a dimensão da sua grandeza musical. Será preciso muito mais para fazer jus a sua biografia.

O seu extraordinário talento e capacidade nos fará muita falta. 

Para além de ser um músico diferenciado, especialmente porque sempre foi focado em aprimorar seus estudos (bacharel em regência orquestral e musical com muitos estudos de canto), também era muitas outras coisas "do humano" como algo definitivamente não lhe era alheio. Corinthiano, pai do Adrian, falava seis idiomas e também era preocupado com o meio ambiente e com a causa animal. Isso e muito mais. 

O Bar Opinião foi um dos lugares que pude vê-lo brilhar no palco, sempre fazendo a diferença.

Agora é só tempo de memória. Infelizmente, é dia de dar Adeus ao Maestro do heavy-melódico brasileiro.

Se duvidar, o céu está lhe ouvindo cantar, afinado como só ele, Carry On, Wuthering Heights, Reaching Horizons e muito mais. 

Como ensina Reaching Horizons, “i don’t blame the fate but it’s too hard to face the truth (...) the same horizons but in different lands”.











domingo, 10 de fevereiro de 2019

Por que não acredito no Governo Bolsonaro






"Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Eu pergunto a você
Onde vai se esconder
Da enorme euforia"
Chico Buarque

Uso minha liberdade de expressão para dizer que não vejo mínimas razões para acreditar no recém empossado Governo do ex-Deputado Federal, agora Presidente, Jair Messias Bolsonaro. Apesar do seu nome, não o vejo como "salvador" de absolutamente nada. Ao contrário, o vejo como um "risco" e um "perigo" concreto à democracia, à soberania nacional e aos direitos humanos. Um verdadeiro retrocesso. 

Só mesmo um país como o Brasil, que nunca teve justiça de transição, para eleger alguém que não reconhece que tenha havido uma Ditadura Militar (1964-1985) com muitas vítimas. Mais do 
que isso, quem celebra e zomba da tortura como terror.

Não é possível acreditar em alguém que fala em "verdade" da Bíblia, mas que, quando candidato,fez uma campanha baseada em muita mentira, "acima de tudo" e "acima de todos".

 Não é possível ter esperança com alguém que prega a violência e as "armas" como resposta. 

 Bolsonaro, parlamentar medíocre por quase trinta anos (sete mandatos), com diversas propostas de leis absurdas e dois projetos aprovados, definitivamente, não tem nada de novo, ainda que incrivelmente tenha conseguido se "vender" como tal. 

 Também não acredito que Bolsonaro represente alguma mudança no combate à corrupção. A corrupção também está nos cargos comissionados providos indevidamente, inclusive para familiares. Os fatos (e "costumes") falam por si.

 O discurso de ódio (ou odiento) de Bolsonaro é pobre como o senso comum dos seus tuítes. Nele não há nem o mínimo rascunho ou esboço de um projeto para desenvolvimento do país, sobre os nossos reais e históricos problemas. 

 Bolsonaro fala em submissão ideológica, certamente sem condições de resistir a um debate mínimo sobre o que seja ideologia, inclusive a sua. A sua colonialidade do "saber" dispensa apresentações. Muitas e evidentes são as suas limitações, em todos os sentidos. 

 Alguém que promete uma política externa favorável aos excessos Israel, contrária à integração da América Latina e subserviente ao Império Estadunidense, já mereceria todas as reservas. Trata-se da colonialidade do poder posta em prática. 

 E o que dizer de um militar reformado (aliás, sob curiosas e particulares circunstâncias) que, antes de ser um nacionalista de verdade, escolhe um Ministro da Economia (que, como diria Paulo Passarinho, está mais para um "Ministro da Liquidação") que é um "chicago boy" e aparente "vende-pátria"?

Desculpem os ingênuos ou mal intencionados: esse "mito", para lembrar de Fernando Pessoa, 
está muito mais para "nada" do que para "tudo".

 Sem nunca ter tido um governo verdadeiramente de esquerda (muito longe disso), o Brasil está 
condenado a quatro anos de um governo de extrema-direita, que provavelmente fará muito estrago no já erodido e ausente Estado social brasileiro.

Mesmo numa eleição com 30% de abstenção, brancos e nulos, o fato é que a maioria dos brasileiros elegeu o "mito" como Presidente (o "ele sim!" venceu o inédito "ele não") e, agora, justa e merecidamente, deverá provar do seu tosco "gatilho". 



terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

Roma: uma obra bem acabada de Alfonso Cuarón





O México no começo dos anos 70 em preto e branco, mas pintado com cores vivas do seu presente, a despeito da expectativa de alguns sobre o novo governo.

Luis Echeverría Álvarez, Presidente do México de 1970 a 1976.  O sempre latente conflito de terra. A violência dirigida contra o protesto que (depois de Tlatelolco, dias antes dos Jogos Olímpicos, em 02 de outubro de 1968), com a ajuda de um grupo paramilitar a serviço do Estado (Los Halcones) que, munido de bambus e armas de fogo,  massacrou estudantes (conhecido como El halconazo) no triste 10 de junho de 1971, chancelado por uma brutal e inaceitável impunidade. Essas são algumas cenas de fundo do México daquele tempo.

No meio disso, no foco principal da lente cinematográfica, a vida de uma família pequeno burguesa entre cães (e seus dejetos), carros e filhos em um bairro de classe média da Cidade do México.

Uma empregada doméstica (Cleo) de origem indígena, ora tratada como mera subalterna, ora com alguma humanidade, ora como se realmente fosse alguém da família. As relações de classe.

A pobreza da periferia da Cidade do México e a falta de saneamento básico. A desigualdade social.

O compromisso (ou não) dos pais com os filhos e o conflito com o trabalho. A ruptura familiar escondida.  A ausência do pai.

A decepção amorosa. A fatalidade. O sacrifício.

Para além de uma expressão intimista e autobiográfica do Diretor, basta atentar para os principais personagens para perceber que se trata de uma reflexão sobre a condição humana e proletária da mulher com um bom flerte feminista.

Pena que o Cuarón não investiu mais e melhor na contextualização do drama político e social mexicano. Tais questões aparecem latentes, mas de modo não contextualizado e insuficiente.

Isso e tudo mais está no filme "Roma", uma obra bem acabada e acertada do Diretor mexicano Alfonso Cuarón (disponível no Netflix e premiado como melhor filme com o "Leão de Ouro" no 75o Festival do Cinema de Veneza).

domingo, 20 de janeiro de 2019

"Nós e o marxismo": o "chamado" de Florestan Fernandes






"Depois que consegue completar o ciclo de transformação em classe em si mesma, a classe operária converte-se no principal fator de alteração da ordem [...] Os proletários, ao e constituirem como classe relativamente autônoma e capaz de desenvolvimento independente, abrem novos rumos para toda a sociedade" Florestan Fernandes

O texto "Nós e o marxismo", de autoria de Florestan Fernandes (sistematização de aulas nos anos 80), publicado pela Editora Expressão Popular em 2009, é uma curta, importante e necessária leitura.

Firme na compreensão particular e crítica do capitalismo desde a periferia dependente brasileira e latinoamericana, o escrito de Florestan Fernandes, mais do que qualquer coisa, é um chamado à autoreflexão: "O propósito que me anima consiste em suscitar toda a problemática da luta de classes, como ela se repõe cem anos após a morte de Marx (embora o leitor precise levar avante, por sua conta, a reflexão crítica e política sobre o assunto)".

Vale recortar algumas dimensões desse trabalho.

O primeiro ponto de grande inflexão pode ser a compreensão da democracia como uma ferramenta proletária ou burguesa. É aqui que a democracia deve ser colocada em debate. Basta estar vivo e pensante para saber que nos sobra democracia burguesa restrita e nos falta democracia proletária ampliada. É a segunda que tem o poder transformador e de abrir as fissuras necessárias para expor as contradições do velho e permitir o nascimento do novo.

Outro aspecto que merece destaque é a percepção de que, na luta por dois mundos (o capitalista ou o socialista), não há como promover mais consciência e poder de luta da classe trabalhadora para as devidas pressões, dissidências e instabilizações na "ordem" estabelecida (o que, ao meu ver, conforma aspectos da "democracia radical" pautada pelo conflito e pelas interpelações) se não houver um "processo cultural quantitativo e qualitativo da revolução" e também o estabelecimento de um "sistema internacional de poder socialista".

A conjuntura atual é reveladora de que não só no Brasil, mas na América Latina, ainda não se tem nem uma coisa ou outra, nem no Estado e nem na dita Sociedade Civil.

O trabalhador ainda não se reconhece como "classe em si" (mas, afinal, a propósito, transpondo o debate para uma realidade específica europeia dada pela conjuntura atual: os "coletes amarelos" franceses nas ruas, o que são? será que podem ser "coveiros", "parteiros" ou "fantasmas" de alguma coisa a merecerem maior atenção? indicam alguma tendência estrutural de mobilização do resgate de alguma "política" frente à "economia" no "biombo do Estado"?).

Se, como diz Florestan, "no interior de uma posição marxista coerente a crise é um processo normal e necessário", em que fase dessa luta, afinal, estamos?

Trata-se de retomar uma velha questão de outro autor conhecido de todos, que deve estar sempre em lugares onde ainda há uma "clamorosa injustiça social": o quê fazer?

Uma coisa é certa: há uma "férrea necessidade" de mudança na direção do "comum".

O atual estado de coisas, qualquer que seja a sua formal "legitimidade", definitivamente não serve como horizonte de presente, muito menos de futuro.




quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

Mais um dia sangrento na Faixa de Gaza

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*Texto escrito em 01 de abril de 2018


Nada menos do que dois milhões de palestinos vivem na Faixa de Gaza. A região atualmente tem forte presença do grupo Hamas, lembrando que o partido Fatah domina a Cisjordânia.

Em época de Páscoa (ou Pessach, a Páscoa judaica), a morte de 15 palestinos por soldados de Israel na Faixa de Gaza no dia 30 de março último é a expressão de um conflito histórico ainda sem definição. Noticia-se mais de mil feridos, dentre os quais dezenas de pessoas com menos de 18 anos.  

Turquia e Irã saíram em defesa dos palestinos. Os Estados Unidos, até aqui, bloquearam o pedido de investigação dos fatos. O Egito está ao lado de Israel: ambos, vale lembrar, são as fronteiras de Gaza.

A notícia dá conta de que os palestinos, aos milhares,  exerciam pura e simplesmente o seu direito ao protesto, denominado “a grande marcha de retorno” na Faixa de Gaza.

Direito ao protesto é o exercício de manifestação democrático. Nas razões do recente protesto, o forte bloqueio econômico e as restrições impostas ao território há mais de uma década.  

O legítimo protesto dos palestinos da Faixa de Gaza propiciado pelo comando do Hamas tem previsão de seis semanas.

Desde o último confronto aberto em 2014 a violência não atingia este nível, ocasião em que o Estado de Israel enfrentou o grupo Hamas, que desde 2007 tem predomínio e hegemonia na Faixa de Gaza.

Aceitará a comunidade internacional esse ataque ofensivo à democracia e aos direitos humanos? 

Onde está a prova de que a “soberania” de Israel teria sido “ameaçada” para justificar esta agressão, com direito a uso de armas letais? Certamente que arremesso de pedras, queima de pneus ou mesmo túneis de um povo “toupeira” sem Estado e sem-saída estão muito longe disso, não?

Sem política internacional que dê conta do problema, resta a guerra. E uma guerra desigual. Um Estado comandando por um presidente ultranacionalista contra um determinado povo. A história mostra que, quando o interesse na “terra” vem antes das “pessoas”, tudo pode piorar. Sabe-se qual é a resposta do desespero para a violência. Mais violência.

Onde ficou o lema de Liberdade, Justiça e Paz da declaração de independência de Israel desde 1948?

Por que Israel parece ser um Estado que, na crítica implícita do Papa Francisco, não respeita nem os indefesos?

sexta-feira, 27 de maio de 2016

71 anos depois de Hiroshima...a indústria da Guerra não perde força: mesmo no Japão!





Obama tem feito um encerramento do seu mandato muito mais próximo e a altura das expectativas da esperança transformadora que cercou sua (re)eleição.

Suas visitas históricas (Cuba, Vietnã e agora Japão, para ficar em 3 exemplos) e falas recentes devem ser vistas com os duros limites e quase incontornáveis de como toca a  política nos Estados Unidos entre republicanos e democratas, inclusive diante do risco “Trump”.

Acontece que a “Revolução Moral” proposta para que o passado ensine o presente exige enfrentar o “livre mercado” com a regulação devida; exige, no mínimo, temperar o capitalismo voraz largamente vigente com um pouco mais de equidade e desconcentração de renda, com melhor distribuição da terra, com menos rentismo e menos exploração. Isso e muito mais.

A capacidade do homem produzir o mal é inerente ao sistema econômico tido como apropriado para nosso tempo e lugar, como o modelo que "deu certo". É preciso lutar por um sistema mais justo, o mesmo sistema que faz com que as bombas em Hiroshima-Nagasaki não sejam uma lembrança de 71 anos atrás, já que guerras contemporâneas, mesmo sem bombas nucleares (ainda que nesse aspecto tenha havido alguns avanços, tais como o acordo com o Irã), continuam a acontecer todos os dias.

Se antes eram campos de concentração movidos por um ditador insano, hoje são campos de refugiados tolerados por líderes europeus e do mundo, sobrando medo e violência em nome da “Guerra ao terror”, como se boa parte do combustível não tivesse uma origem colonial em verdadeiro efeito rebote.

Aliás, muito do que pode e deve mudar poderia começar por Israel…oprimido de ontem, opressor de hoje. 

Mas voltemos ao Japão e à visita de Obama. O Japão, enfim, como nação, visto na perspectiva da história, parece ter aprendido, de fato, alguma coisa; de império do passado, o país, desde 1945, com base na sua previsão constitucional que retira o direito de Guerra do Estado (apesar de ste manter forças armadas estruturadas),  nunca mais enviou um soldado sequer para qualquer tipo de combate, um recorde de pacifismo comprovado. 

A despeito disso, o governo do Primeiro Ministro liberal-democrata Shinzo Abe insinua querer mudar a ordem das coisas, inclusive noticiando intenção de emendas à Constituição, usando como justificativa o crescimento da China e o empoderamento nuclear da Coreia do Norte, ou seja, o mesmo discurso do medo…Nos últimos tempos, Abe já conseguiu aumentar o orçamento militar, permitir exportação de armas, atitudes com as quais o “never again” gravado no memorial de Hiroshima fica sob risco e ameaça (mesmo que eventual mudança exija quórum qualificado de 2/3 e um referendo nacional).

Dito isso, é de se questionar se a visita dos Estados Unidos (que não foi, de fato, um pedido de desculpas) não terá subliminar motivação comercial-militar para investimentos na indústria da guerra?

A motivação segue sendo a mesma, sem mudar a raiz do problema, ele persistirá. Mais de 200 mil pessoas morreram em Hiroshima-Nagasaki…hoje, mais de um bilhão de pessoas passam fome no mundo e isso parece ser algo tolerado e naturalizado.

Como bem afirmou Obama dias antes da visita, definitivamente,  “the job is not done”!Não mesmo!